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REVISTAS DE AUTOMOBILISMO NO BRASILPor Carlos de Paula Escrever sobre
automobilismo brasileiro é uma façanha difícil. Há uma carência muito
grande de informações, e às vezes, grandes discrepâncias. Listas de
inscritos e resultados de corridas contém terríveis erros ortográficos, que
freqüentemente impedem a identificação correta de pilotos, carros e
escuderias. Os órgãos e clubes de automobilismo não são muito dados a
consultas, além do que existe uma dispersão muito grande de dados, que data da
época das homéricas brigas entre o ACB e CBA, isso sem contar arquivos
perdidos ou danificados. Assim, muitas das
pesquisas são realizadas em consultas à mídia escrita, significando em grande
parte a imprensa especializada, e de forma secundária, a mídia generalizada,
ou seja jornais e revistas. É, senhores, não existia Internet há cinquenta
anos atrás!! Até os anos 60 o
automobilismo era um esporte esparsamente praticado no Brasil. Os dois grandes pólos
eram São Paulo, onde existia o autódromo de Interlagos, e o Rio Grande do Sul.
Também havia corridas com certa freqüência no Rio de Janeiro, Paraná, e,
esporadicamente, em outros lugares, mas nada que justificasse a existência de
uma mídia especializada na época. Diga-se de passagem, a mídia
brasileira inteira dos anos 50 tinha um caráter generalizado. Basta constatar
que até mesmo a primeira revista semanária jornalística de cunho nacional, no
molde da Time, só viria a ser publicada na segunda metade dos anos 60, a Veja.
Pouco havia em termos de mídia nacional, com exceções como a revista o Cruzeiro,
e, de fato, o Brasil era composto de diversos brasis. Aqui e ali, o Cruzeiro publicava
notinhas sobre automobilismo. Tecnologias e tempos
diferentes vieram, que levaram a uma maior integração do país. As
telecomunicações, a TV, aviões de maior porte, crescimento das empresas,
estradas, satélites, tudo isso contribuiu para a formação de uma verdadeira mídia
de alcance nacional. Ainda assim, o
automobilismo era essencialmente regional nos anos 60. Se até mesmo o futebol,
paixão nacional, era basicamente regional e só veio conhecer um verdadeiro
campeonato nacional em 1971, o que esperar do nosso pobre automobilismo! Surgiam,
revistas “especializadas” que não sobreviviam muito tempo, editadas por
abnegados entusiastas com bolsos rasos. A primeira revista de
alcance nacional a dar cobertura ao automobilismo foi a Quatro Rodas, lançada
pela Editora Abril em 1960. Inicialmente uma revista de turismo, a Quatro Rodas
logo passou a editar artigos sobre automóveis, visto a sinergia entre os
assuntos, além do que, o interesse pelo turismo não era tão grande na época.
Uma coisa leva à outra, e após alguns artigos e uma recatada coluna de uma página
sobre competições, surgiu a seção Alta Rotação, em 1963.
Inicialmente, esta era situada no começo da revista. Logo viria concorrência,
e brava. A Auto Esporte foi lançada pela editora EFECE do Rio de Janeiro
no final de 1964, com a proposta de tratar somente de automobilismo de competição,
ao passo que a Quatro Rodas cobria automóveis, turismo, competição e até
mesmo o complicado trânsito de São Paulo. Ficaram claras desde o
inicio as identidades de cada revista. A Quatro Rodas tinha um enfoque mais “jornalístico”,
ao passo que a Auto Esporte era obviamente elaborada por amantes do metiê. Logo
a Auto Esporte começou a promover rallyes, publicando o primeiro ranking
brasileiro de pilotos no final de 1966, ao passo que a Quatro Rodas se defendia
com o Prêmio Victor de Automobilismo. A Auto Esporte também começou
verdadeira campanha para implementar a Fórmula Vê no Brasil, assunto tratado
com certa distância pela QR. Esta dedicava um espaço restrito às corridas,
passando a seção Alta Rotação para o final da revista, freqüentemente
deixando de publicar os resultados das corridas cobertas, ao passo que a Auto
Esporte dedicava muitas páginas a cada evento, com muitas fotos e resultados
detalhados. Entre outras coisas, a Auto Esporte cobria corridas em longínquos
locais como Natal, Lages (SC) e até mesmo o automobilismo argentino (quando
faltava assunto no nacional), ao passo que a Quatro Rodas se restringia às
corridas mais importantes em São Paulo e Rio . Até mesmo fotos
femininas foram usadas no combate entre as duas revistas. Quando a Auto Esporte
começou a publicar fotos e desenhos de mulheres em trajes menores no calendário
automobilístico publicado no encarte central, a Quatro Rodas chegou a publicar
alguns ensaios de modelos vestidas de biquínis, com carros diversos, inclusive
o protótipo Bino da Willys.
Nos anos 60 a Editora
Abril já era poderosa no Brasil, certamente mais poderosa do que a EFECE,
que além da Auto Esporte publicava a revista Fairplay, precursora das
revistas masculinas brasileiras. Assim, podia promover visitas de ex-pilotos ou
pilotos atuais ao País, principalmente para entrega do Prêmio Victor. Entre
estes, estiveram no país como convidados da revista Joakin Bonnier, Piero
Taruffi e Phil Hill, que puderam examinar as condições locais, e até
mesmo dar dicas sobre a reforma de Interlagos. Apesar de todo
entusiasmo, a Auto Esporte se viu forçada a incluir na sua pauta testes de
automóveis, efetivamente tornando a Auto Esporte uma revista de automobilismo e
automóveis e motocicletas. Com isso aumentou sua tiragem, número de leitores e
nível de anunciantes, mas resultou numa diminuição da cobertura esportiva,
logo desaparecendo as corridas regionais e reportagens interessantes de
automobilismo de competição em outros cantos do mundo. O automobilismo
argentino, tão presente no começo da revista, simplesmente sumiu do mapa. Nos idos de 1969 a
qualidade gráfica de ambas as revistas já era muito boa, com muitas fotos a
cores, e nesse mesmo ano, começa a mudar o foco de cobertura do nosso
incipiente automobilismo doméstico para o internacional. Dois fatores contribuíram
para isso: o fechamento de Interlagos e o sucesso de Emerson Fittipaldi, Luis
Pereira Bueno e Ricardo Achcar na Europa. De fato, as coisas
mudaram muito rápido. A história de Emerson é abordada em diversos locais deste
site, mas com a entrada deste na Fórmula 1, as revistas passaram a
focalizar mais a cobertura da categoria maior do automobilismo, sem contar também
as categorias menores, como F-2, F-3 e F-Ford, onde corriam outros brasileiros.
A Auto Esporte continuava a oferecer melhor cobertura, com excelentes gráficos
não só para os Grande Prêmios de Fórmula 1 como para certas corridas
brasileiras, principalmente provas de longa duração, como as Mil Milhas e 12
Horas de Interlagos. Só que a Quatro Rodas
tinha o peso da Editora Abril por trás, e certamente tinha mais alcance do que
a revista editada no Rio, que às vezes chegava com atraso até mesmo nas bancas
de São Paulo. A Auto Esporte tentava de tudo para se sobressair, inclusive
publicando uma revisão anual do setor automobilístico e a promoção do Carro
do Ano, ao passo que a Quatro Rodas
tinha a vantagem de editar uma coluna assinada por Emerson Fittipaldi. Com a vitória de
Emerson na Fórmula 1, em 1972, e transmissão de muitas corridas pela Rede
Globo, aumentou demais o interesse pelo automobilismo de competição, e
ambas as revistas se esmeraram mais na cobertura das corridas domésticas e no
estrangeiro. O patrocínio comercial de equipes também ajudou a expandir a
cobertura. A volta das provas de longa de duração da Divisão 1, em 1973, também
geraram expansão e melhoria na cobertura, sendo que as revistas freqüentemente
publicavam os grids e resultados completos até mesmo das provas domésticas. De fato, os gráficos da
Auto Esporte entre 1974 e 1976 estão entre os melhores que já vi na imprensa
automobilística mundial, em termos de qualidade visual e conteúdo. A Quatro
Rodas não ficava muito atrás, embora começasse a reduzir o volume de
cobertura a partir de 1976, quando Emerson passou para a Copersucar,
e os resultados na F-1 começaram a rarear. Em respostas a cartas dos leitores
que cobravam maior cobertura esportiva, a Quatro Rodas normalmente respondia não
haver “interesse jornalístico”! Mas os entusiastas
tiveram onde recorrer durante algum tempo. Em 1973 surgiu a revista Grand
Prix, de Reginaldo Leme, certamente a melhor revista de automobilismo da época.
Com muitas páginas, fotografias lindas, papel de alta qualidade e longas
reportagens, a revista era realmente especializada em automobilismo, cobrindo
categorias na época obscuras para o público brasileiro, como NASCAR e o
Mundial de Rallyes. Entretanto, tinha poucos anunciantes, e logo
desapareceu das bancas, certamente por não ter sustentação econômica. Havia
também um jornal de muito boa qualidade, de freqüência quinzenal, chamado Auto
Motor, que dava ampla cobertura do automobilismo doméstico e internacional. Com a crise do
automobilismo em 1977 (o governo inicialmente havia proibido
as corridas em 1976, voltando atrás, mas os calendários foram reduzidos e
provas de longa duração proibidas) e a falta de resultados de brasileiros na
F-1 levou as duas grandes revistas a dedicar cada vez menos espaço ao esporte.
A Quatro Rodas acrescentou náutica à sua pauta, tomando mais páginas
do automobilismo de competição, e logo as duas revistas passaram a publicar
somente os nomes dos dez primeiros colocados em provas domésticas. Para piorar,
em alguns casos omitia-se o nome dos pilotos, publicando-se somente a inicial e
o sobrenome, diminuindo o valor do registro histórico. Eventualmente até a
Auto Esporte começou a publicar reportagens de turismo, pois o mercado
automobilístico do Brasil era muito restrito na época. Cabe lembrar que haviam
somente cinco montadoras de carros no país, e as novidades eram poucas. Quantos
testes do Opala ou Fusca você poderia ler na vida? A era Ayrton Senna mudou
um pouco o enfoque, e a Fórmula 1 voltou a ter “valor jornalístico” mas a
cobertura do automobilismo doméstico continuou fraca, apesar da falta de lançamentos
do setor automobilístico. A questão de falta de
novidades mudou quando Fernando Collor resolveu acabar com as carroças.
Repentinamente, com a abertura das importações o mercado brasileiro de automóveis
se viu inundado por modelos de todos os tipos, desde Bestas a Ferraris. Assim, o
excesso de pauta e interesse comercial simplesmente acabaram com a cobertura
automobilística na Quatro Rodas e AE. Eventualmente, Quatro Rodas e Auto
Esporte (eventualmente comprada pela Editora Globo) se tornaram revistas
sobre o mercado automobilístico, com breves referências ao automobilismo de
competição, quase notas de rodapé. Entretanto, surgiram
boas revistas para compensar essa lacuna, sendo a principal a Racing. A
revista Grid persistiu com boa cobertura durante alguns anos, mas foi a
Racing sobreviveu, especializando-se no automobilismo de competição. Algumas
revistas regionais apareceram no país afora, como a Pista Livre no Paraná,
mas geralmente, sucumbiram às realidades econômicas. A internet veio trazer
mais modificações ainda na cobertura escrita do automobilismo. Atualmente, só
a Racing publica resultados de corridas, que, presume-se, podem ser ampla
e prontamente achados na Internet. Coitados dos leitores de banheiro!
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